Esclerose Sistêmica: quando mãos inchadas e pele endurecida podem indicar algo mais sério.
- 19 de fev.
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A esclerose sistêmica é uma doença autoimune sistêmica caracterizada por fibrose da pele e órgãos internos, vasculopatia e produção de autoanticorpos específicos. Os principais mecanismos patogênicos envolvem disfunção endotelial, ativação imune e deposição excessiva de matriz extracelular, levando à fibrose cutânea e visceral.

Sintomas:
Os sintomas da esclerose sistêmica são variados e refletem o envolvimento multissistêmico da doença. Os sintomas iniciais mais comuns incluem fenômeno de Raynaud (mudança de cor dos dedos ao frio), inchaço dos dedos ou mãos (dedos edemaciados), e fadiga.
Com a progressão, surgem espessamento e endurecimento da pele (esclerodactilia), úlceras digitais, telangiectasias (manchas vermelhas na pele), e calcinose (depósitos de cálcio subcutâneos). O envolvimento de órgãos internos é frequente e pode se manifestar por disfagia e refluxo gastroesofágico (trato gastrointestinal), dispneia (pulmões), hipertensão arterial pulmonar, insuficiência renal (crise renal esclerodérmica), e comprometimento cardíaco.
Outros sintomas relatados incluem dor, fadiga intensa, distúrbios do sono, ansiedade e depressão, que impactam significativamente a qualidade de vida. A apresentação clínica pode variar conforme o subtipo: na forma limitada, os sintomas cutâneos restringem-se a mãos, antebraços e face, enquanto na forma difusa há acometimento proximal dos membros e tronco, com maior risco de envolvimento visceral precoce. Em casos raros, pode haver envolvimento visceral sem espessamento cutâneo evidente (sine esclerodermia).
Portanto, os sintomas mais característicos são fenômeno de Raynaud, dedos inchados, espessamento cutâneo, úlceras digitais, telangiectasias, calcinose, disfagia, dispneia, hipertensão pulmonar, insuficiência renal, dor e fadiga.
Diagnóstico:
O diagnóstico é clínico, baseado em manifestações como fenômeno de Raynaud, espessamento cutâneo simétrico, alterações capilaroscópicas e presença de autoanticorpos específicos (anti-Scl-70, anti-centromero, anti-RNA polimerase III). Os critérios de classificação de 2013 do American College of Rheumatology/European Alliance of Associations for Rheumatology (ACR/EULAR) são amplamente utilizados, sendo necessário um escore ≥9 para classificação, após exclusão de outras causas. Exames complementares incluem sorologia, capilaroscopia, tomografia de tórax (para fibrose pulmonar), ecocardiograma (para hipertensão pulmonar) e provas de função pulmonar.
Diagnósticos diferenciais:
Devem ser considerados: fasceíte eosinofílica, escleromixedema, amiloidose, dermatomiosite, mixedema, doença de injúria por radiação, e nefropatia sistêmica induzida por gadolínio. A ausência de Raynaud, autoanticorpos específicos e alterações capilaroscópicas sugere outras etiologias.
Tratamento:
O tratamento é multidisciplinar e individualizado, focando nas manifestações predominantes. Para fibrose cutânea e pulmonar, a Sociedade Europeia de Reumatologia (EULAR) recomenda micofenolato de mofetila como primeira linha; alternativas incluem metotrexato, ciclofosfamida, rituximabe e tocilizumabe. Para fibrose pulmonar progressiva, o uso de nintedanibe é aprovado nos EUA e recomendado pela EULAR. O fenômeno de Raynaud e úlceras digitais são tratados com bloqueadores de canais de cálcio (nifedipina), inibidores de PDE5, antagonistas de endotelina (bosentana) e prostanoides. O manejo de hipertensão pulmonar inclui terapia combinada com inibidores de PDE5, antagonistas de endotelina e prostanoides. O acompanhamento regular para detecção precoce de envolvimento visceral é fundamental.
Se você perceber mudanças na cor dos dedos, endurecimento da pele ou cansaço persistente, não ignore. Uma avaliação especializada é fundamental para diagnóstico precoce e prevenção de complicações.
Referências:
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