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Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide: uma doença autoimune que você precisa conhecer

  • 16 de mar.
  • 3 min de leitura

A síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF) é uma doença autoimune sistêmica caracterizada por trombose arterial, venosa ou de pequenos vasos e/ou morbidade gestacional (perdas fetais recorrentes, pré-eclâmpsia grave, restrição de crescimento fetal), associada à presença persistente de anticorpos antifosfolípides (anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-β2-glicoproteína I).



Mulher gravida com perna com trombose

Fisiopatologia:

A SAF resulta da produção de autoanticorpos contra proteínas ligadas a fosfolipídios, principalmente a β2-glicoproteína I. Esses anticorpos promovem ativação endotelial, plaquetária, monocitária e do complemento, levando a um estado pró-trombótico. Mecanismos adicionais incluem ativação de neutrófilos (NETose) e interferência na função trofoblástica, contribuindo para complicações gestacionais.


Sintomas:

Os sintomas da síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF) decorrem principalmente de eventos trombóticos e complicações obstétricas. Os sintomas mais comuns incluem trombose venosa profunda, trombose arterial (especialmente acidente vascular cerebral e ataque isquêmico transitório), perda fetal recorrente (abortos espontâneos, principalmente após a 10ª semana de gestação), preeclâmpsia e insuficiência placentária.


Outras manifestações frequentes são trombocitopenia (geralmente leve), anemia hemolítica, livedo reticular (descoloração cutânea em rede), doença valvar cardíaca e disfunção cognitiva. Menos comuns, mas reconhecidos, são úlceras cutâneas, hipertensão pulmonar, microangiopatia trombótica renal e manifestações neurológicas como enxaqueca, convulsões e coreia.


A SAF pode se apresentar de forma catastrófica, com tromboses simultâneas em múltiplos órgãos, levando à falência orgânica aguda, embora essa forma seja rara.


Em mulheres, complicações gestacionais como abortos recorrentes, morte fetal, parto prematuro e restrição de crescimento intrauterino são manifestações centrais.


Diagnóstico:

O diagnóstico requer pelo menos um critério clínico (trombose ou morbidade gestacional) e um critério laboratorial (presença de anticorpos antifosfolípides em duas ocasiões separadas por pelo menos 12 semanas). Os anticorpos são detectados por métodos validados: anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-β2-glicoproteína I (ELISA). Os critérios de classificação mais recentes são os de 2023 do American College of Rheumatology/European Alliance of Associations for Rheumatology (ACR/EULAR), que refinam o algoritmo diagnóstico.


Tratamento:

O tratamento de primeira linha para trombose é anticoagulação com antagonistas da vitamina K (varfarina), visando INR 2,0–3,0 para trombose venosa e, em casos de trombose arterial, pode-se considerar INR 3,0–4,0 ou associação com AAS, conforme risco individual.


Em gestantes, a combinação de AAS em baixa dose (75–100 mg/dia) e heparina de baixo peso molecular é recomendada para prevenção de complicações obstétricas.


Em determinados casos, a enoxaparina pode ser indicada, especialmente nos casos em que o tratamento com varfarina é inviável ou como ponte para procedimentos cirúrgicos.


Em casos refratários ou com manifestações não trombóticas, pode-se considerar hidroxicloroquina e estatinas como adjuvantes.


Anticoagulantes orais diretos não são recomendados em pacientes com tripla positividade ou trombose arterial.


O manejo deve ser individualizado e multidisciplinar.



A síndrome do anticorpo antifosfolípide pode passar despercebida por anos, mas com diagnóstico correto e tratamento adequado é possível viver bem.

Se você teve trombose, perdas gestacionais recorrentes ou outras manifestações suspeitas, procure um reumatologista e inicie o acompanhamento o quanto antes.


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